A “Telha do Pará” na arquitetura antiga de Piripiri

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Em tempos idos até meados do século XIX as casas e sobrados do Brasil eram recobertas por telhas canal ou colonial, moldadas artesanalmente por escravos. Eram naturalmente muito irregulares, o que gerou uma crença popular de que eram feitas nas coxas. A expressão inclusive transcendeu o discurso técnico, e é ainda hoje utilizado para designar pejorativamente qualquer coisa mal feita (Colin, 2010).

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TELHADO COLONIAL APRESENTANDO A IRREGULARIDADE NO FEITIO DAS PEÇAS E A VARIAÇÃO DE CORES. FONTE DA IMAGEM: COLIN, 2010.

O cozimento também não era perfeito, como viria a ser no século XIX, quando aqui aparecem no Brasil as telhas francesas ou Marselha e as telhas romanas. O processo de moldagem e cozimento davam a estas telhas forma e coloração muito características responsáveis pela aparência inconfundível das edificações coloniais, que tanto agradam às novas gerações (id.)

As telhas francesas começaram a ser fabricada quando os ceramistas da época perceberam que o modelo utilizado pelos franceses, de forma quadrada e composto de uma só peça, algumas reentrâncias e pequena saliência para fixação, podia cobrir um m² com apenas 16 unidades. Muito menos do que as telhas coloniais, necessárias 24 unidades por m².

Todavia, as telhas francesas quase planas, sem o canal profundo característico das telhas coloniais, exigia um grande aumento na inclinação do telhado, ou seja, um caimento de no mínimo 45% ou mais. Ganhava-se muito no custo das telhas, porém gastava-se muito mais na estrutura de madeira, o que vinha a ser um ótimo negócio, pois na época, a madeira era farta e vendida a um preço muito barato. 

Mas a vantagem não era só a acima descrito. O encaixe entre elas é bem mais adequado do que as telhas comuns. Além disso, em decorrência dos telhados com águas de 45º, o impacto dos pingos da chuva no telhado fazia com que a água escoasse rapidamente rumo aos beirais ou calhas, prolongando a vida útil da telha francesa.

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IMAGEM PARCIAL DA FACHADA LATERAL DO CASARÃO DO PADRE FREITAS, PRAÇA DA BANDEIRA, PIRIPIRI-PI. OBSERVEM QUE AS TELHAS SÃO DO TIPO COLONIAL. NÃO HÁ INCLINAÇÃO DO TELHADO ADEQUADO ÁS TELHAS FRANCESAS. FONTE: ARQUIVO PÚBLICO DO PIAUÍ.

Entretanto, aquele tipo de telha foi caindo em desuso exatamente porque a madeira começou a ficar cara demais a partir da segunda metade do século XX. Mas até toda a primeira metade do século XX era fabricada por todo o Brasil, imitando o modelo original. Ainda é fabricada em vários modelos, mas em números bem mais modestos que antigamente.

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DETALHE UM TELHADO BEM ANTIGO, DE TELHA FRANCESA. FONTE: MINHASMINIS-MYMINIS.BLOGSPOT.COM.BR.

O telhado de telhas francesas, com seus caimentos em torno de 45% era apoiado em uma trama de ripas e caibros que, por sua vez, se apoiavam em tesouras e que se apoiavam em cima das paredes usando coxins, igualmente de madeira, para distribuir melhor o esforço sobre ostijolos (Iberê Campos).

Assim como em outras partes do Brasil, os casarões e chalés antigos em Piripiri-PI com águas muito inclinadas eram recoberto por estas telhas tipo francesa.  São conhecidas entre nós por telha do Pará. Talvez esse nome derivasse da importação da mesma pelo porto de Belém. 

Em Piripiri podem ser observadas duas marcas destas telhas. A mais antiga, Telhas Cortez, era fabricada no atual Bairro Rosápolis, em Parnaíba-PI. Pertencia ao comendador Francisco Gonçalves Cortez, que também possuía uma fábrica de sabão nas primeiras décadas do século XX.

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TELHA FRANCESA DA FÁBRICA CORTEZ. FICAVA ONDE ATUALMENTE É O BAIRRO DE ROSÁPOLIS, PARNAÍBA-PI. ESTA PEÇA FAZIA PARTE DO TELHADO DE UMA RESIDÊNCIA DEMOLIDA NO PERÍODO FEVEREIRO-MARÇO DE 2015 NA RUA FELINTO RESENDE EM PIRIPIRI-PI.

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A TELHA FRANCESA DA IMAGEM ANTERIOR É ORIUNDA DESTA EDIFICAÇÃO COM DEMOLIÇÃO COMPLETA JÁ CONCLUÍDA, NA RUA FELINTO RESENDE, CENTRO DE PIRIPIRI-PI. ALI EM TEMPOS IDOS FUNCIONAVA UMA REPRESENTAÇÃO DA AGÊNCIA DE ÔNIBUS BARROSO.

Posteriormente, um piripiriense de nome Valdemar, em época não muito precisa talvez nos anos 1940-1950 instalou um pequeno forno na Rua Antônio Alves e passou a fabricar a telha tipo francesa de marca Brasil. Não sabemos de onde era trazida a argila. Porém o local da fábrica é hoje um terreno baldio, no centro de Piripiri. Sobre O Sr. Valdemar não conseguimos averiguar quase nada.

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NESTE ATUAL TERRENO BALDIO DA RUA ANTÔNIO ALVES FUNCIONOU A FÁBRICA DE TELHAS TIPO FRANCESAS BRASIL DE PIRIPIRI-PI.

Segundo o nonagenário e lúcido Sr. Gérson Ribeiro de Carvalho (n. 1921), o Sr. Hamilton Coelho de Resende teria comprado a fábrica do Sr. Valdemar em data imprecisa. Hamilton Coelho de Resende era pai do ex-deputado federal piripiriense Murilo Ferreira de Resende (n.1930). Não conseguimos averiguar o ano de fechamento da fábrica.

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A PRÓPRIA RESIDÊNCIA DO SR. GÉRSON RIBEIRO, NA PRAÇA DA BANDEIRA EM PIRIPIRI, DE DUAS ÁGUAS, É RECOBERTA POR TELHAS FRANCESAS.

Pelos sertões de Piripiri ainda é possível se encontrar restos de edificações ou telhas francesas reutilizadas.

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TELHA FRANCESA DA FÁBRICA PIRIPIENSE BRASIL, DE UM GALPÃO DA RESIDÊNCIA DO SR. LUIZ GONZAGA CUNHA E SILVA, POVOADO PEQUI, PIRIPIRI-PI.

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COM CERTEZA ESTE TELHADO NÃO FOI CONSTRUÍDO PARA ESTE BARRACO, MAS AS PEÇAS FORAM APROVEITADAS DE UMA ANTIGA CONSTRUÇÃO. POVOADO PEQUI, PIRIPIRI-PI.

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OUTRO EXEMPLAR DA TELHA BRASIL. TERIA RECOBERTO OS PRÉDIOS DA ANTIGA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE PIRIPIRI, HOJE COBERTOS COM TELHAS COMUNS.

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UM DOS ANTIGOS PRÉDIOS DA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE PIRIPIRI. O TELHADO HOJE É FORMADO POR TELHAS COMUNS. PORÉM, PELA SUA INCLINAÇÃO DE 45º SE PERCEBE QUE ORIGINALMENTE FORA CONSTRUÍDO PARA TELHAS FRANCESAS.

Uma das edificações piripirienses que preservam seu telhado original é uma construção com algumas características neoclássicas na Av. Tomaz Rebelo, quina com os Correios. Segundo o memorialista piripiriense Evonaldo Andrade, pertenceu como residência ao funcionário dos Correios de João Damasceno Monte (1870-1950). Uma de suas filhas, Santilha Bandeira Monte, administrou o local por muitos anos como “Hotel Piripiri. Ainda hoje a espaçosa edificação possui função de hotel.

É possível se observar a inclinação das quatro águas em cerca de 45º, sendo todas compostas por telhas francesas. 

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ANTIGA EDIFICAÇÃO PIRIPIRIENSE DA AV. TOMAZ REBELO, COM TELHADO EM QUATRO ÁGUAS, COMPOSTO INTEIRAMENTE POR TELHAS FRANCESAS DA MARCA BRASIL.

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ESTA TELHA TIPO FRANCESA FOI FOTOGRAFADA NO TELHADO DA ANTIGA CONSTRUÇÃO DO SR. JOÃO DAMASCENO MONTE, HOJE HOTEL, NA AVENIDA TOMAZ REBELO, QUINA DOS CORREIOS EM PIRIPIRI.

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RESIDÊNCIA ANTIGA AO LADO DA PRAÇA DE EVENTOS DE PIRIPIRI AINDA PRESERVA SUAS TELHAS FRANCESAS NAS SUAS VÁRIAS ÁGUAS.

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ANTIGO CHALÉ NA RUA PADRE DOMINGOS, DE VÁRIAS ÁGUAS, RECOBERTO POR TELHAS DO PARÁ.

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EDIFICAÇÃO DA PRAÇA DAS FLORES, PIRIPIRI-PI, DE QUATRO ÁGUAS, COM TELHAS FRANCESAS.

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CHALÉ BEM PRESERVADO DA RUA JOÃO DE FREITAS, EM VÁRIAS ÁGUAS, COM TELHAS DO PARÁ.

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A TOMADA PARCIAL DO CENTRO DE PIRIPIRI NAS MARGENS DA PRAÇA DA BANDEIRA MOSTRA A AUSÊNCIA DAS TELHAS FRANCESAS. PORÉM OS TELHADOS DAS EDIFICAÇÕES MARCADAS COM UM A APRESENTAM A RUSTICIDADE E ANTIGUIDADE DE SUAS INSTALAÇÕES EM CORES VARIADAS, DESBOTADAS OU ESCURECIDAS, SÃO RESULTANTES NÃO SÓ DAS INTEMPÉRIES, MAS TAMBÉM DOS PROCESSOS DE MOLDAGEM E COZIMENTO POR QUE PASSARAM.

Fontes:

Campos, Iberê. Em Patologias da construção.

Colin, Sílvio. Técnicas construtivas do período colonial – II. Matéria do link https://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2010/09/06/tecnicas-construtivas-do-periodo-colonial-ii/, Publicado em 06/09/2010.

http://minhasminis-myminis.blogspot.com.br/2013/05/telhas-pesquisa-roof-tiles-research.html

http://www.lajoteiro.com.br/telha-francesa/