A primeira metade do século XIX foi muito marcante para Piracuruca, destaco aqui neste artigo, três episódios que entraram para a história do município, são eles: as lutas pela independência do Brasil (a partir de 1822), a instalação da Vila de Piracuruca (a partir de 1832) e finalmente, a participação da vila de Piracuruca na Revolta dos Balaios (a partir de 1839).
Apesar do foco principal do artigo ser a Revolta dos Balaios em terras piracuruquenses, faz-se necessário contextualizar com esses dois episódios anteriores, por haver uma certa relação entre os mesmos.
Piracuruca nas lutas pela Independência do Brasil
O primeiro marco de relevância se deu motivado pelas lutas visando a manutenção e a reafirmação da independência do Brasil, cronologicamente temos o dia 12 de dezembro de 1822, como o ponto de partida, a partir do qual vieram outros acontecimentos importantes apontados neste artigo.
A data supracitada, marca a passagem do major Fidié pela povoação da então freguesia de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Piracuruca. Fidié vinha da capital Oeiras, para sufocar o movimento independente proclamado em Parnahyba no dia 19 de outubro do mesmo ano. Ao partir para Parnahyba, Fidié deixou um destacamento de militares guarnecendo a povoação de Piracuruca.
A partir de então, Piracuruca passou a figurar nas páginas históricas, como um importante local, onde houveram sérios desdobramentos relacionados à adesão do Piauí à independência do Brasil. Na sequência, em 22 de janeiro de 1823, o Alferes Leonardo de Carvalho Castelo Branco e José Francisco de Miranda Osório (que eram membros do movimento independente de Parnahyba), marcharam sobre a sede da freguesia de Piracuruca, vindos do Ceará. Comandando 600 homens, eles atacaram e aprisionaram a guarnição que Fidié havia deixado no povoado.
Dois dias depois de tomada a povoação de Piracuruca, o Alferes Leonardo em ato solene, leu o seu histórico termo de proclamação da independência, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, que terminara assim: “Viva nossa Santa Religião, Viva a futura Constituição Brasiliense, Viva a D. Pedro I, Imperador Constitucional do Brasil e seu perpétuo defensor, Viva a nossa santa Independência, Viva todos os Brasileiros honrados, briosos e intrépidos!”. Piracuruca então, passou a ser um centro da resistência contra Fidié, tornando-se o mais poderoso acampamento de separatistas do Piauí.

Em 10 de março de 1823, ao retornarem de Parnahyba rumo a Oeiras, Fidié destacou cerca de 80 soldados de cavalaria comandados por 2 oficiais, para irem à frente da tropa, fazendo o reconhecimento do trecho. Já em terras piracuruquenses, na altura do lugar Ilhós-de-Baixo, encontraram um grupo com algumas dezenas de independentes, também montados, foi onde ocorreu um combate que ficou conhecido como “Escaramuça do Jacaré” ou “Batalha da Lagoa do Jacaré”. Este combate deixou pequenas perdas dos dois lados, mesmo assim foi, portanto, um prelúdio do que Fidié iria encontrar dois dias depois, precisamente em 13 de março de 1823, quando ocorreu a grande Batalha do Jenipapo, em Campo Maior.

A instalação da Vila de Piracuruca
Após as lutas pela independência, cerca de 10 anos depois, ocorreu um outro marco bastante significativo para a história de Piracuruca, foi quando se deu a elevação da então freguesia de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Piracuruca à categoria de vila, que se deu a partir de Decreto Regencial do Império Brasileiro, em 6 de julho de 1832.
A instalação oficial da vila ocorreu somente no ano seguinte, em 23 de dezembro de 1833, com a presença do Coronel Simplício Dias da Silva, presidente da Câmara de Parnahyba, após as leituras do supracitado Decreto Regencial de 6 de julho de 1832 e da portaria da Presidência da Província do Piauí, datada de 21 de agosto de 1833.
A então vila de Piracuruca, agora desmembrada de Parnahyba, tinha um vasto território, limitando-se no Leste e no Oeste com a província do Ceará (Viçosa) e a província do Maranhão (Brejo), respectivamente. Para se ter uma ideia da imensidão geográfica, as terras da vila de Piracuruca se estendiam para o norte a lugares como a Barra do Longá, hoje município de Buriti dos Lopes e para o sul até as terras onde hoje é o município de Pedro II, emancipado de Piracuruca em 11 de agosto de 1854.
Com a instalação oficial da vila de Piracuruca, instituíram-se os poderes constitucionais, o que trouxe a vantagem da autonomia administrativa, a partir disto, tomaram posse os primeiros vereadores, tendo como primeiro Presidente da Câmara, o vereador Albino Borges Leal, que na ocasião, também passou a possuir atribuições equivalentes às de prefeito. Entre os primeiros vereadores, destaca-se a presença de Pedro de Brito Passos, o grande patriarca dos “Brito” no norte do Piauí e região.
Por outro lado, esta autonomia teve um custo, pois, coube aos gestores da nova vila algumas obrigações administrativas que antes eram da competência de Parnahyba, como por exemplo a arrecadação fiscal e o recrutamento militar. Além disso, a nova vila de Piracuruca ficou em evidência na região, trazendo para si os olhares e gerando certa insegurança, como por exemplo em 1937, quando apareceram pela vila os primeiros bandos armados de rebeldes, que eram contrários à Lei do Recrutamento Militar.
Em tempo: o Professor Iran Machado lançou recentemente o livro “Piracuruca – A Nascença de um Município”. O Professor defende que a data da emancipação política e consequentemente do aniversário da cidade de Piracuruca, seja revisto e alterado de 28 de dezembro de 1889 para 6 de julho de 1932. O link para o download do livro está no final deste artigo.
A Revolta dos Balaios, em síntese
Neste cenário, a vila de Piracuruca acompanhou atenta o surgimento de um movimento rebelde denominado de Revolta dos Balaios, também conhecido como Balaiada. A Balaiada foi um movimento popular armado de origem rural, ocorreu entre 1839 e 1841. Iniciado na província do Maranhão, a Balaiada tinha um forte conteúdo político-social e revolucionário.
Do Maranhão, o movimento se espalhou fortemente pelo Piauí e depois pelo Ceará, além de atingir também a Bahia e Pernambuco. O pano de fundo do movimento era a instabilidade política, econômica e constitucional pela qual passava o Brasil na época. O grito do Ipiranga, ocorrido cerca de 17 anos antes, não teve a princípio um efeito benéfico prático para aqueles que viviam no sertão e isto fortaleceu o sentimento de revolta e consequentemente, movimentos rebeldes como a Balaiada.
O termo BALAIADA vem de Manoel Francisco dos Anjos Ferreira (Manoel Balaio), artesão fazedor de balaios, homem simples do interior do Maranhão, que se tornou um símbolo da reação dos oprimidos contra os poderosos. Tudo começou quando Manoel Balaio fez vingança frente ao capitão Antônio Raimundo Guimarães, um oficial legalista do Governo do Maranhão. A motivação foi que o referido capitão havia violentado e filha de Manoel Balaio.
Esta ação de Manoel Balaio passou a ser vista como um ato simbólico de justiça do pobre contra o rico e com isto, ele adquiriu muitos simpatizantes e a solidariedade da parte dos menos favorecidos. Manoel foi ganhando corpo no meio rural, a ponto de se tornar um líder bandoleiro. Ele passou a representar os insatisfeitos com a situação precária que viviam, em face aos desmandos dos líderes locais que governavam a província do Maranhão.
Além de Manoel Balaio, outros dois personagens foram pilares para o surgimento e expansão do movimento da Balaiada. O primeiro deles foi o vaqueiro piauiense Raimundo Gomes Vieira Jutaí (Cara Preta). Cara Preta se destacou após invadir uma cadeia na vila da Manga, interior do Maranhão, libertar o seu irmão que era acusado de assassinato, além de libertar também parte dos seus homens que estavam presos. Estes dois fatos, o de Manoel Balaio e o de Cara Preta, são apontados como o estopim para a Revolta dos Balaios. A partir de então, Manoel Balaio e Cara Preta tornaram-se parceiros.
A seguir, o último personagem se juntou ao movimento, era um ex-escravo e líder quilombola de nome Cosme Bento das Chagas (Nego Cosme), que se autointitulava “Imperador e Tutor das Liberdades Bem-te-vis”. O termo Bem-te-vi popularizou-se como apelido do Partido Liberal, que fazia oposição ao Partido Conservador que governava o Maranhão.
Em tempo: a Revolta dos Balaios também ficou conhecida como Revolta dos Bem-te-vis.
Na maior parte do tempo de sua duração, o movimento da Balaiada ocorreu simultaneamente nas províncias do Maranhão e do Piauí, inclusive as respectivas lideranças, tanto da repressão quanto dos rebeldes, participaram de ações em ambas as províncias.
Na prática, a Balaiada foi um movimento de uma ideologia bastante inconstante e contestada, com ações variando desde atos de banditismo, saques, vinganças pessoais, passando por confrontos partidários localizados e até momentos de sincera inspiração nacionalista e republicana. O fato, é que o movimento, resultou em enormes prejuízos materiais e o sacrifício de centenas de vidas.
No caso do Piauí, o movimento constituiu-se na cisão das oligarquias a se digladiarem ferozmente, arrastando consigo a multidão de cabras, vaqueiros e agregados transformando-os em combatentes, os escravos piauienses não participaram diretamente do movimento. Ao se infiltrarem no Piauí, a preferência dos rebeldes era particularmente, pelos municípios e vilas às margens ou próximas dos rios Parnaíba, Longá, Poti, Piauí e Gurguéia.
Os Balaios chegam à vila de Piracuruca
Foi justamente pela margem do rio Parnaíba, mais precisamente pela Barra do Longá, que os balaios adentraram às terras da vila de Piracuruca, neste caso, um grupo comandado por Cara Preta. Acontece que após serem perseguidos no Maranhão, Cara Preta e seu bando com cerca de duas centenas de homens, entraram no Piauí através da Vila de São João da Parnahyba. Sendo também perseguidos pelas autoridades piauienses, eles se refugiaram na Barra do Longá.
Já instalados na Barra do Longá, Cara Preta e seu bando foram novamente atacados em 31 de janeiro de 1839. Foram pegos de surpresa e não ofereceram tanta resistência. Após o confronto com as tropas legalistas de Parnahyba, o bando de Cara Preta teve uma baixa de 6 mortos, 1 ferido e 18 prisioneiros, além de deixarem para trás armas, cavalgaduras e bagagens. Tiveram então que atravessar o rio Parnaíba e partir em retirada, de volta rumo ao sertão do Maranhão.
Este acontecimento chegou ao conhecimento do Presidente da Província do Piauí, Manoel Gomes Martins (Visconde da Parnahyba). Além disto, haviam também reclamações de membros da população ribeirinha do rio Parnaíba, que passaram a viver sob ameaça dos balaios. Tais fatores, fizeram com que houvesse por parte das autoridades do Piauí, um maior investimento em armas , convocando a Guarda Nacional e arregimentando todos os homens que se sentissem capazes de usar armas em defesa da província.
Cara Preta retorna ao Piauí e em Campo Maior se encontra com Lívio Lopes Castelo Branco e Silva, oportunidade em que ambos fizeram uma aliança. Lívio era um jovem idealista muito respeitado na província, além de ser filho do Alferes Leonardo de Carvalho Castelo Branco, o grande herói que havia proclamado a independência em Piracuruca em 1823. A intensão de Livio ao unir-se com Cara Preta era puramente patriótica em defesa das causas da justiça social. Já para os balaios, esta era uma grande oportunidade de ressignificação do movimento no Piauí e assim obter mais aceitação e adeptos.
Ao retornar ao Maranhão, Cara Preta se reuniu com Manoel Balaio e Nego Cosme. Com os três grupos lutando juntos e mais a adesão de Lívio, que contribuiu com mais de 600 homens arregimentados no Piauí, o movimento da Balaiada ganhou força. Lívio e seus homens fizeram parte ao cerco à cidade de Caxias, no Maranhão. Ao conviver de perto e ver os atos praticados pelos balaios, Lívio percebeu o erro que tinha cometido ao aliar-se a eles.
Em tempo: Lívio sofreu muitas consequências e perseguições por ter-se aliado aos balaios, foi preso em 30 de outubro de 1839 no Rio Grande do Norte, evadiu-se para a Paraíba, tentou sair do país e acabou sendo anistiado pelo decreto de anistia de 22 de agosto de 1840. Em 1841, tentou voltar ao Piauí, mas foi deportado para Pernambuco, onde novamente foi posto em liberdade. Lívio não desistiu de atuar no meio político e cultural, foi o fundador no jornal “O Liberal Piauiense”, que circulou em Teresina, até 1869, mesmo depois da sua morte que ocorreu em 1867, aos 54 anos.
Em Piracuruca, chegou a notícia da adesão de Lívio ao movimento da Balaiada e isto gerou uma grande repercussão. Se antes na vila já haviam alguns simpatizantes ao movimento revolucionário dos balaios, com a adesão de Lívio, aumentaram bastante o número de piraruquenses que passaram a ver a Balaiada como uma revolução justa e então, se manifestavam dispostos a aderirem à luta armada dos balaios.
Por outro lado, na mesma época, transitava pela vila de Piracuruca, um tal Antônio José da Cunha Lima Pedregulho. Pedregulho se dizia emissário do Cara Preta e se aproveitando do aumento do número de simpatizantes da vila, em favor da Balaiada, tentou aliciar mais combatentes para engrossar as fileiras do movimento. Porém, não obteve sucesso na sua missão, e sim, a antipatia das lideranças da vila.
Dada à rejeição ao seu nome devido os seus atos, Pedregulho acabou evadindo-se antes de ser preso, deixando uma péssima imagem. No entanto, apesar da sua atuação frustrante, o movimento da Balaiada ainda se achava com muitos simpatizantes na vila. Contrários e lutando contra este sentimento, estavam o grande patriarca Pedro de Britto Passos e o padre José Monteiro de Sá Palácio, então vigário da vila de Piracuruca.
Por volta de maio de 1839, o território da vila de Piracuruca foi mais uma vez visitado por Cara Preta e seu bando, desta vez, não houve resistência contra ele. A inoperância em defender a vila contra aos balaios neste episódio, custou caro para Albino Borges Leal, então representante máximo da vila. Por “pusilanimidade e indolência” Albino foi substituído através de uma portaria emitida pela presidência da Província. Em seu lugar assumiu o vice, José Luiz Rodrigues de Miranda.
José Luiz, consciente de que uma das maiores motivações da insatisfação da população da vila contra o Governo da Província do Piauí, era a Lei do Recrutamento Militar, tratou de suspender os alistamentos. Esta ação acalmou um pouco os ânimos da população da vila. Foi uma medida popular acertada, que fez com que diminuísse a rejeição que existia conta o governo legalmente posto e consequentemente diminuísse os ímpetos da população em favor do movimento rebelde da Balaiada.
Mesmo assim, as ameaças de invasão da vila continuavam, tanto que em julho de 1839, dada à constante apreensão e medo de um ataque surpresa dos balaios, o Governo da Província instalou uma guarnição militar na vila e designou o tenente-coronel Roberto Vieira Passos, como comandante das operações de repressão aos grupo balaios.
Na sequência, em agosto no mesmo ano, a vila de Piracuruca foi visitada pelo prefeito de Parnahyba José Francisco de Miranda Osório, ele era o homem de confiança do Presidente da Província e veio dialogar com a população e pedir que a mesma aderisse de vez à legalidade e abandonasse qualquer sentimento rebelde. Miranda Osório prometeu perdão para aqueles aderissem às causas legalistas e que evitassem o contato com os revoltosos ou seus emissários.
Em tempo: Miranda Osório, cerca de 16 anos antes, havia sido um nome forte nas lutas pela independência. Conforme supracitado, em 22 de janeiro de 1823, ao lado de Leonardo Castelo Branco, comandaram uma marcha sobre a sede da então freguesia de Piracuruca, atacaram e aprisionaram uma guarnição que Fidié havia deixado no povoado.
No entanto, a fase mais crítica ainda estava por vir e começou em setembro 1839, quando o território da vila de Piracuruca foi novamente invadido. Desta vez, um grupo de 56 balaios invadiram a povoação de Matões, hoje cidade de Pedro II. Queimaram casas e assassinaram o alferes, 6 soldados que guarneciam a vila e feriram gravemente o juiz de paz Zacarias Pereira.
Em tempo: Matões, atual cidade de Pedro II, foi emancipado de Piracuruca em 11 de agosto de 1854.
De Matões, os balaios seguiram para a Vila Viçosa Real (Viçosa do Ceará), no caminho foram aumentando as suas fileiras, aliciando simpatizantes por onde passavam. O plano principal era invadir a vila de Piracuruca e para isto, já contavam com um efetivo de mais de 200 homens. Ao descerem a Serra da Ibiapaba rumo à vila de Piracuruca, pararam na Fazenda Bebedouro, próximo à margem do Rio Piracuruca e lá fizeram acampamento.
A notícia de que os balaios estavam acampados na Fazenda Bebedouro e de lá pretendiam invadir a vila de Piracuruca, chegou até as autoridades legalistas da vila. Foi então mobilizado um grande contingente de soldados, comandados pelo major Joaquim Ribeiro, tenente Antônio Pires Ferreira e do alferes Braga. A tropa de legalistas avançou sobre os balaios, venceu o combate e evitou a invasão da vila de Piracuruca.

O confronto armado entre legalistas e balaios na Fazenda Bebedouro, começou logo ao amanhecer do dia 20 de setembro de 1839 e durou até o dia seguinte. Os balaios ficaram sob intenso tiroteio da tropa de Joaquim Ribeiro e sucumbiram. Cercados, eles ficaram sem acesso à água e sem alimentos, tiveram que se render. O saldo do combate foi de 15 balaios mortos, 205 prisioneiros e 2 fugitivos.





Os prisioneiros e os mortos foram levados para a vila de Piracuruca. Os prisioneiros foram transferidos para Parnahyba, já os mortos foram enterrados em vala comum em um cemitério dentro da área da Fazenda Limoeiro, próximo à zona urbana de Piracuruca. O local é conhecido como cemitérios dos Bem-te-vis. Com esta derrota em Piracuruca, a Revolta dos Balaios teve o seu primeiro e grande desmoronamento no Piauí.

Mesmo sem ser atacada, a povoação da vila de Piracuruca se preparou para o pior. Com a maioria dos homens engajados como voluntários, compondo a tropa que foi lutar na Fazenda Bebedouro, o que restou na vila foram mulheres, velhos e crianças. Muitos, com medo do ataque dos balaios, procuravam abrigo em esconderijos e na beira do rio. Os poucos homens que restaram na área urbana, se armaram e se organizaram em piquetes e se entrincheiraram na entrada da vila a comando do juiz Onofre José de Melo, ficaram prontos para receber os balaios na bala.
Coube inclusive ao padre Sá Palácio se armar e organizar um audacioso plano de defesa, utilizando a Igreja de Nossa Senhora do Carmo como lugar de refúgio para a população. As grossas portas do templo foram travadas por dentro e foram providenciadas reservas de água e de alimentos. Sobre o teto da igreja, próximo ao cruzeiro de pedra, foram posicionados vigias para observar o movimento no horizonte. Caso vissem algo, já sabiam que teriam que tocar os sinos da igreja, avisando que a invasão era eminente.

Apesar da vitória no combate do Bebedouro, as ameaças à vila de Piracuruca continuavam, o principal foco rebelde a partir de então, ficou sendo o lugar Frecheiras da Lama, hoje município de Cocal. Frecheiras havia se tornado um forte reduto de balaios comandados por Antônio de Souza Cabral. Visando neutralizar as ameaças vindas de Frecheiras, em 15 de novembro de 1839, a vila de Piracuruca recebeu um grade reforço que se incorporou ao Comando Militar da vila, que passou a ter cerca de 400 homens a comando do tenente-coronel Roberto Vieira Passos.
Com o passar do tempo, os balaios que circundavam a vila de Piracuruca foram se descaracterizando dos seus objetivos revolucionários. O que houve a partir de então, foram ataques isolados e criminosos às fazendas da região, visando roubos de reses e de valores. Apesar do forte contingente legalista, estas investidas dos bandoleiros eram muito difíceis de serem contidas, pois eles se embrenhavam no mato e tomavam destinos ignorados.
Frecheiras continuava ocupada pelos balaios, o que ainda perdurou por um bom tempo. Até que em setembro de 1840, o tenente-coronel Roberto Veira Passos e o padre Sá Palácio, receberam um carta de Antônio de Souza Cabral, líder balaio de Frecheiras. Na carta, o líder balaio propôs uma rendição dele e de seus comandados. Estranhamente, a condição para a rendição era que Cabral, entrasse na vila de Piracuruca com 40 homens armados e não recebesse resistência. Caso fosse aceita a proposta, ele prometia abraçar as causas legalistas e jurar fidelidade ao imperador Dom Pedro II. Pela desconfiança, a carta ficou sem resposta.
A resistência balaia em Frecheiras desencadeou uma série de outros acontecimentos, combates sangrentos e muitas mortes. Pela proximidade com a Serra da Ibiapaba, houve uma interação direta com o Ceará, tanto de apoiadores como de resistência. Após a rendição dos líderes e muito sangue, o foco de balaios em Frecheiras foi abafado, trazendo uma certa tranquilidade para a vila de Piracuruca.
O fim da Revolta do Balaios
Na sequência dos acontecimentos, no Maranhão, o seu lugar de origem, a revolta dos Balaios entrou em declínio, principalmente a partir de 7 de fevereiro de 1840, quando o coronel Luiz Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias) assumiu o comando geral das armas e a presidência da província.
Caxias tratou de restabelecer a ordem na administração provincial e assim, abrandar as divergências entre os grupos políticos contrários (cabanos e bem-te-vis) além de combater com veemência os focos balaios ainda resistentes. Dos líderes, pilares do movimento balaio, o primeiro que sucumbiu foi o principal deles, Manoel Balaio, que foi morto em um dos vários combates ocorridos após a chegada de Caxias.
Entre Cara Preta e Nego Cosme, haviam divergências e acabou que Nego Cosme aprisionou Cara Preta. Ao escapar, Cara Preta refez o seu bando e ainda resistiu até ser capturado pelas forças legalistas. Preso, ele foi enviado para São Paulo para o exílio, na viagem, morreu misteriosamente.
Nego Cosme ainda resistiu, até ser aprisionado, terminou sendo executado em 1842, após o fim do movimento. A Balaiada foi encerrada nos primeiros meses de 1841.
Fontes Consultadas:
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MAVIGNIER, Diderot. Piracuruca no bicentenário da Independência do Brasil: A Batalha da Lagoa do Jacaré. Revista Ateneu 3. Parnaíba: SIEARTE, 2021.
VERAS, Rosângela Mourão. A BALAIADA NO PIAUÍ: UMA ANÁLISE A PARTIR DO LIVRO DIDÁTICO DE HISTÓRIA. ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003.
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