O tesouro arqueológico do Rio Pirangi em Buriti dos Lopes – Piauí

Registra-se aqui o acelerado processo de depredação que o Sítio Arqueológico existente abaixo da ponte do Rio Pirangi está sofrendo. Assim, esse patrimônio arqueológico, precisa urgente de uma intervenção para frear a ação predatória e salvaguardar esse local tão importante para a arqueologia piauiense.

O Rio Pirangi nasce no município de Viçosa no Estado do Ceará. O termo “pirangi” na linguagem indígena significa “água vermelha” (1). Partindo da sua nascente em Viçosa do Ceará, o Pirangi entra no Piauí pelo município de Cocal, passando em seguida pelo município de Buriti dos Lopes, onde finalmente chega à sua foz no Rio Parnaíba.



Percurso do Rio Pirangi após entrar no Piauí, até a foz no Rio Parnaíba.

Do lado piauiense, percorre aproximadamente intensos 120 km, nesse percurso, marcado por belezas naturais como as cachoeiras: Pirapora, Pinga, Engenho Velho e Serragem, e pela tragédia do rompimento da Barragem de Algodões no dia 27 de maio de 2009, o Rio Pirangi apresenta também, um dos mais importantes sítios arqueológicos com gravuras rupestres do Estado do Piauí.


Cachoeiras do Rio Pirangi:

Em “a” Pirapora, em “b” Pinga, em “c” Engenho Velho e em “d” Serragem (2).
Os links para os vídeos das canhoeiras do Pirangi estão no final dessa matéria.


Barragem de Algodões (detalhe do local do rompimento), Rio Pirangi – Cocal-PI (3).

A Arte rupestre no Piauí

De forma geral, a arte rupestre pode ser de duas formas: as gravuras rupestres (petróglifos) e as pinturas rupestres (pictogramas), normalmente datam a partir de 3000 anos. Os petróglifos são desenhos talhados e os pictogramas são desenhos pintados nas rochas pelo homem pré-histórico. No Piauí, os pictogramas ocorrem com mais frequência do que os petróglifos. Logo abaixo dessa matéria tem um link para a página do “Projeto Artes do Bitorocaia”, que é o mapeamento arqueológico dos sítios arqueológicos existentes na Bacia do Rio Piracuruca.


Alguns registros de visitas aos sítios arqueológicos com pinturas rupestres do Piauí:

Em “a” Sítio Torres em Pedro II, em “b” Sítio Guaritas em Bom Princípio, em “c” Serra do Morcego em Caxingó, em “d” Pedra do Letreiro em Batalha, em “e” Sítio Melancias em Piracuruca e finalmente em “f” Parque Nacional da Serra da Capivara em São Raimundo Nonato.

De fato, além dos sítios acima, as pinturas rupestres ocorrem também em vários outros municípios do Piauí, como: São José do Divino, Castelo do Piauí, Piripiri, Valença e tantos outros espalhados por todo o Estado, além dos Parques Nacionais: Serra da Capivara, Serra das Confusões e Sete Cidades. Já os petróglifos, por sua vez, são mais restritos a locais como: Parque da Serra da Capivara, Cânion do Rio Poti, além é claro, do Rio Pirangi, que é o objeto desse estudo.


Gravuras rupestres na Serra da Capivara em São Raimundo Nonato-PI (Montagem com fotos enviadas por (Edivan Lima – Guia do Parque Serra da Capivara).


Gravuras rupestres no Cânion do Rio Poti, município de Buriti dos Montes-PI (Montagem com fotos de Juscelino Reis, enviadas por Augusto Vasconcelos).

As gravuras rupestres do Pirangi

As gravuras rupestres do Rio Pirangi aqui apresentadas, estão localizadas em um pequeno cânion que fica exatamente embaixo da ponte da BR 343, no município de Buriti dos Lopes, visitei o local em duas ocasiões, em 2012 e em janeiro de 2020. De acordo com (4), “o sítio é registrado no Núcleo de Antropologia Pré-histórica – NAP, da Universidade Federal do Piauí – UFPI e é descrito oficialmente como: ‘Rio Pirangi – trecho ponte’”.


Vista aérea da ponte do Rio Pirangi (por Araújo DRONE). Em destaque, registros das duas visitas que fiz ao Pirangi, em 2012 e em 2020.


A sobreposição dá a ideia do tamanho e disposição dos registros no painel principal de gravuras do Pirangi.


Painel principal com gravuras, aqui prevalecem figuras soliformes e zoomorfos.

Além do painel principal, mais gravuras estão espalhadas pelo entorno, algumas isoladas, outras em pequenos agrupamentos, gravuras com motivações zoomórficas, antropomórficas, mandalas e outras simbologias enigmáticas.


Outro painel com gravuras, uns 10 metros além do painel principal.


Gravuras isoladas, dispersas pelo pequeno cânion do Pirangi.

De acordo com o Sr. Antônio Francisco Demétrio, morador da região:

Tinham outros desenhos espalhados por aqui, hoje não existem mais. Eu mesmo cheguei a ver muitos, antes de serem destruídos, principalmente na retirada de pedras para fazer calçamento, as pedras foram usadas nessa estrada que liga Buriti dos Lopes a Parnaíba, depois foi proibido quebrar, após denúncia que estavam destruindo o restante dos desenhos. Antigamente quando tinha mais desenho, vinha mais gente visitar.”

De fato, algumas gravuras que presenciamos em 2012, hoje não as encontramos mais, devem ter sido quebradas e usadas como calçamento ou até mesmo como alicerce.


Sr. Antonio Francisco Demétrio, morador da região.

Situação do sítio e necessidade de preservação

Trata-se de um local fácil de ser encontrado e com um constante fluxo de pessoas, o lado ruim disso é o visível desgaste, descaracterização dos painéis e intervenções negativas os quais as gravuras vem sofrendo ao logo do tempo. Além disso, não há a mínima estrutura de visitação e nem orientação aos visitantes. Essa falta de informação no local, com certeza é um fator que contribui com a ação depredatória.


Aqui, três fatores que contribuem para a destruição do sítio arqueológico do Pirangi: em “a” as rochas, onde tem as gravuras, foram quebradas; em “b” pessoas deixam seus nomes gravados e/ou pichados na rocha, bem próximo aos desenhos e em “c” o acúmulo de lixo no local.

Há de se ressaltar, o trabalho do Grupo de Educação para o Patrimônio e Arqueologia de Buriti dos Lopes – GEPAR, o mesmo tem realizado ações que visam a valorização e consequentemente alertam sobre a depredação que as gravuras do Rio Pirangi estão sofrendo (4), segundo eles:

A demora na adoção das medidas pode significar um período de mais degradações em um local que deveria ser protegido pela relevância ambiental e cultural. É preciso que a população e poder público possa compreender a importância desses espaços em diversos aspectos.

Outro sítio na margem do Pirangi

No entanto, a riqueza arqueológica do Rio Pirangi não se limita ao pequeno cânion supracitado, em (5), é observado que professores e pesquisadores da Unidade Escolar Nossa Senhora de Fátima (UNENSFA) de Buriti dos Lopes, identificaram um outro local com gravuras na margem do Pirangi. De acordo com (5):

A identificação do sítio só foi possível em virtude de um projeto de fotografia realizado na UNENSFA, por professores e alunos. Estes, inclusive, foram os principais agentes de identificação, sobretudo porque, através de algumas fotografias, puderam revelar tamanha riqueza, contribuindo para o trabalho futuro dos pesquisadores.
Vamos tomar a liberdade e nomear este sítio arqueológico de Sítio Arqueológico das Branquinhas. É um complexo de gravuras rupestres e é conhecido pela comunidade local, mas que, pela primeira vez, está sendo feito um registro de maneira científica, uma análise estrutural.


Amostras retiradas de (5), com algumas gravuras do Sítio Branquinhas, na margem do Rio Pirangi. Aqui vemos: espirais aparentando uma clotóide, soliforme, mandala e um outro símbolo em formato tridente ou pegada.

Tradição Itaquatiara

Cientificamente, as gravuras rupestres são classificadas como “Tradição Itaquatiara” e estão presentes nos cursos de muitos leitos d’água pelo Brasil. Itaquatiaras significam “pedras pintadas”, em língua tupi (6). Conforme (7):

As itaquatiaras formam a tradição ou as tradições mais enigmáticas de toda arte rupestre do Brasil. Por estarem quase sempre nos cursos d’água e, muitas vezes, em contato com ela, resulta difícil relacioná-las com algum grupo humano, sobretudo pela impossibilidade, na maioria dos casos, de estabelecerem-se associações com restos de cultura material. Entretanto, existem algumas exceções quando as itaquatiaras identificam-se com culturas de caçadores, em abrigos próximos a rios ou em caldeirões. Estes depósitos naturais que se enchem d’água na estação das chuvas, têm, às vezes, as paredes cobertas de petróglifos e tem sido possível realizar-se escavações nas proximidades com bons resultados. É também muito difícil fixar cronologias para esta variedade de arte rupestre.

De fato, dos três locais com gravuras rupestres, citadas aqui nesse artigo, os desenhos do Pirangi se assemelham com os do Cânion do Poti. Um fator relevante, e comum entre esses dois locais é que ambos estão em margem de rios. Já o terceiro ponto, que fica no Parque da Serra da Capivara, os desenhos são, em sua maioria, diferentes e não se localiza próximo aos cursos d’água.

Registra-se aqui o acelerado processo de depredação que o Sítio Arqueológico existente abaixo da ponte do Rio Pirangi está sofrendo. Assim, esse patrimônio arqueológico, precisa urgente de uma intervenção para frear a ação predatória e salvaguardar esse local tão importante para a arqueologia piauiense.

CORDEL: OS PETRÓGLIFOS DO PIRANGI

Você que passa pela ponte
sobre o Rio Pirangi
não imagina que debaixo
uma riqueza existe ali.
Um sítio arqueológico,
aqui bem perto do Buriti.

É uma arte rupestre rara,
talhada na margem do rio.
Desenhos que vencem o tempo,
mas que não perdem o brio.
Resistiram até à cheia,
naquele tempo sombrio.

É tradição itaquatiara,
é o que se tem referência.
Gravura deixada na rocha,
com muita consciência.
Exemplos de petróglifos,
nome dado pela ciência.

Tem muitos tipos e formas,
que o povo antigo deixou.
Não se sabe qual a época
nem que sentido apontou.
Estudos e suposições
muita gente já contou.

Seria o culto das águas,
que essa arte simbolizava
ou rituais, cerimônias,
que festejavam e curava,
ainda mapa de passagem
que aos ancestrais guiava.

Agora que você já sabe,
sempre quando lá passar,
pense além da ponte
que se vai atravessar.
Ali tem um bem importante
e que precisa preservar.

Retirado do livro Versos Retos de um Poeta Torto.
F Gerson Meneses, 2018.

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Referências:
1 – Diccionario Histórico e Geographico da Ibiapaba – Pedro Ferreira de Assis (Ibiapina-CE)
2 – https://www.portalbocadopovo.com/2011/03/rio-pirangi-boa-pedida-pro-fim-de.html
3 – https://cidadeverde.com/colunadozozimo/98530/a-tragedia-de-algodoes-10-anos-depois
4 – http://extraparnaiba.blogspot.com/2019/10/buriti-dos-lopes-sitio-arqueologico-com.html
5 – https://rsite1.wordpress.com/2016/12/09/ha-um-ano-pesquisadores-identificavam-sitio-arqueologico-das-branquinhas/
6 – portaldarte.com.br/pinturarupestre.htm
7 – MARTIN, Gabriela – Pré-história do Nordeste do Brasil – Editora Universitária UFPE, 5ª edição, 2008.

 

Artes do Bitorocaia