A década de 1870 é referenciada pelo jornalista e cineasta piracuruquense Jureni Machado Bitencourt (3/9/1942 – 27/4/1999) como um período de grandes perdas de personalidades importantes de Piracuruca. No capítulo “MORREM OS GRANDES CORONÉIS”, a partir da página 117, Jureni destaca em seu livro “Apontamentos Históricos da Piracuruca”, três mortes que causaram grandes comoções no povo da então vila de Nossa Senhora do Carmo da Piracuruca – Província do Piauí.
De acordo com Jureni (1):
– A primeira grande comoção foi a morte em 17 de março de 1872, do então Presidente da Província do Piauí, o Tenente Coronel José Amaro Machado.
– A segunda foi a morte do grande patriarca dos Brito, Pedro de Brito Passos, que morreu em 24 de julho de 1875.
– A terceira ocorreu em 9 de setembro de 1878, pela divulgação da notícia trágica envolvendo o Ten. Coronel João Martiniano Fontenelle e a sua esposa D. Joaquina Alves de Moraes Fontenelle.
No entanto, as tragédias não foram somente estas acima, o que pouca gente sabe é que no início da década de 1870, um grande desastre natural aconteceu na cidade de Piracuruca, e isso foi noticiado de forma proporcional no Jornal A Imprensa, Edição 244, de 19 de abril de 1870.
Cabeçalho do Jornal A Imprensa, Edição 244, de 19 de abril de 1870.
Vejamos a nota e em seguida alguns comentários sobre a mesma:
Recorte da nota que noticiou a “catastrophe”.
Detalhes sobre a nota:
Chama a atenção, logo no início da nota, ao referenciar a então Villa de Piracuruca como a 1ª em beleza e a 5ª em população da província do Piauí. Sobre o número de habitantes (664) o texto baseia-se na contagem que ocorreu em 1866.
O fato, chamado de cataclisma, foi uma enchente no Rio Piracuruca que teve o seu ápice entre os dias 28 e 30 de março de 1870 e atingiu, de forma séria, mais da metade das casas existentes na vila. De 130 casas, 71 foram seriamente comprometidas e 47 delas foram ao chão, o que se configura, realmente, uma catástrofe.
O correspondente foi o alferes Raimundo Caetano de Moraes e os redatores do Jornal foram Deolindo Mendes da Silva Moura e David Moreira Caldas. Estes últimos, para darem uma ideia da dimensão da tragédia, fizeram uma comparação em termos proporcionais, dizendo que era como se o Rio de Janeiro perdesse 10700 casas. Esta comparação teve a intenção de dizer que o sofrimento moral e a angústia era a mesma, independente de ter ocorrido em uma aldeia (Piracuruca) ou em uma metrópole (Rio de Janeiro).
Os redatores pedem às almas piedosas e ao governo que “lancem suas vistas caridosas e philanthropicas para os desvalidos semi-naufragos de Piracuruca” e transcreveram um relato poético de seu correspondente dizendo: “desde a noite de 28 de março que teem por tecto negras nuvens … e por leito o solo inundado…”.
A nota exalta o “remeiro de canoa” de nome Bernardo José Valério, o “único existente na villa”. Leva-se a crer que Bernardo desempenhou um papel fundamental no suporte às vítimas da tragédia, tanto que os autores o compararam a “Simão do Pernambucana”. Simão era tido como um herói na época, por causa de um grande feito humanitário. Ele era natural de Cabo Verde, um arquipélago perto da costa noroeste da África.
Sobre Simão em (2) consta o seguinte:
…o marinheiro Simão, original de Cabo Verde, era livre e foi responsável por salvar 13 pessoas do naufrágio do vapor Pernambucana, que saiu no dia 6 de outubro de 1853 do Rio Grande do Sul, com destino ao Rio de Janeiro, tendo naufragado já nos primeiros dias da viagem. Seu feito rendeu-lhe destaque na imprensa da época…
Simão, salvador dos náufragos da Pernambucana. Gravura – Revista Estrangeira. Lisboa, 1853 – 1862 (2).
Finalmente, a nota é encerrada com a frase: “Depois de Noé, com a sua arca, só Deus com a sua infinita misericórdia…”.
Fontes consultadas:
1 – PEREIRA, J. M. B. “Apontamentos históricos da Piracuruca”. Teresina-PI, Editora COMEPI, 1989. 2 – MARINO, N. P. “O ‘retrato do intrépido marinheiro Simão’ e as possibilidades de representação do negro na arte do século XIX”. IX EHA – Encontro de História e Arte – UNICAMP 2013. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/eha/ atas/2013/Nara%20Petean%20Marino.pdf. Acesso em: setembro/2022.
F Gerson Meneses é natural de Piracuruca – PI, professor de informática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFPI / Campus Parnaíba – Piauí; Pós-Doutor em Arqueologia; Doutor em Biotecnologia; Mestre em Ciência da Computação; Especialista em Banco de Dados e em Análise de Sistemas; Bacharel em Ciência da Computação; Pesquisador em Computação Aplicada, destaque para pesquisas na área de Computação Visual com temas voltados para a Neurociência Computacional, onde estuda padrões em imagens do cérebro e Arqueologia Computacional, com estudos destinados ao realce, segmentação e vetorização de imagens de arte rupestre, incluindo a fotogrametria. Ganhador do Prêmio Luiz de Castro Farias (versão 2024), promovido pelo IPHAN, como melhor
Artigo Científico sobre a Preservação do Patrimônio Arqueológico brasileiro. Escritor, poeta, fotógrafo da natureza, colaborador do impresso "Piauí Poético" e de várias coletâneas, entre elas o "Almanaque da Parnaíba" e a série "Piauí em Letras".
Autor de várias obras, destaque para o livro "Ensaio histórico e genealógico dos Meneses da Piracuruca" (2022).
É idealizador e mantenedor do Portal Piracuruca (www.portalpiracuruca.com) e do periódico impresso Revista Ateneu (ISSN 2764-0701). Ambos os projetos existentes desde 1999 com a mesma finalidade, que é divulgar a exuberância de cenários, a cultura, a história, os mistérios, a pré-história, as lendas e as curiosidades do Piauí.
Desenvolve desde 2018 o Projeto Artes do Bitorocaia (www.portalpiracuruca.com/artes-do-bitorocaia/) que tem por objetivo o mapeamento e catalogação dos sítios arqueológicos com registros rupestres existentes no Piauí.