Um conto de carnaval: A realidade de uma tarde de quarta, esbranquiçada pelo clarão das cinzas

As primeiras cuícas celebram com um ronco afoito e ritmado,
Na passarela nublada, começa o desfile do bloco da vida.
Um jovem Pierrot ensaia com o seu paredão,
Colocando no ar um barulho que silencia a lucidez.

O espelho reflete uma Colombina,
Menina moça e bela como a escola campeã com dez em quase todos os quesitos,
Ansiosa para esse tempo não passar
E certa do cortejo de muitos Arlequins.

Começa então o mundo de sonhos,
Quimeras de dias e noites de folias extravagantes.
Debaixo dos confetes o que há?
Além de amigos e amores ébrios.

Em comum, todos perseguem o júbilo,
Um deleite com um repentino prazer que seja,
Buscam ver cores numa bruma de dúvidas
E inconsciente, o cérebro serpentina alucinado.

A carne vibra dentro de um corpo inquieto,
Pierrot de longe ver Colombina e acena com um copo,
São muitos Arlequins que interrompem a visão entre os três,
Protegendo de quem ela não quer ver agora.

Ao som das paredes que isolam a realidade,
O coração bate forte, no ritmo de gargalhadas e olhares baixos.
Colombina se completa de corpo e de Arlequim,
O paredão molhado recebe o cuidado de um Pierrot sozinho e rodeado de outros sozinhos.

De mão a outra vai passando o ladrão de consciência,
Espalhando no ar o sopro úmido da falta de argúcia.
Arlequim cheio de graça se despede de Colombina
E pensativa ela descansa no ombro dela mesma.

Com o início do começo do fim desses dias,
Um Pierrot combalido pede arrimo.
Um paredão em ruínas, ofegante e no alento
É cortejado pelo som abafado do último surdo.

Colombina levanta a fronte sepultada
E ver Pierrot de olhar vacilante e sorriso fúnebre.
Um abraço demorado de corpos alheios,
Cela um desamor de desencontro marcado.

O bloco passa e leva um pouco de vida,
Volta-se a realidade numa tarde de quarta,
Deixando um pedaço bem vivido da existência,
Que continua…agora esbranquiçada pelo clarão das cinzas.

F Gerson Meneses – março de 2019