Um crime em 1842: o assassinato do coronel Antônio Raimundo Dias de Seixas e Silva na Parnahiba

O passado é didático, e a pedagogia da História nos ensina que o Brasil sempre foi um país violento. Antes de Cabral, os índios viviam em eterna disputa, onde a sentença da antropofagia era decretada pelos mais simples motivos. Por um simples papagaio, travavam guerras intermináveis. Durante séculos, a escravidão de índios e negros aos moldes do império romano, a luta pela terra e poder, a capanagem senhorial, banalizaram a desordem.

Corria o ano de 1842, e mal serenava as lutas da Revolta da Balaiada, um crime abalou a vila de São João da Parnahiba, no Norte do Piauí: a morte do coronel Antônio Raimundo Dias de Seixas e Silva, filho de Simplício Dias da Silva (1773-1829). O mandante suspeito: coronel José Francisco de Miranda Osório.

Passava das oito horas da noite do dia 28 para 29 de outubro, os lampiões já se apagavam na vila da Parnahiba. Na residência do negociante João Álvares de Souza, Antônio Raimundo jogava voltarete com os parceiros, o major José Gomes de Araújo e José Antônio Marques, e ao jogo também assistia o coronel João José de Salles. Subitamente, aproveitando-se da escuridão, o assassino encapuzado invadiu a casa do negociante e foi logo desferindo oito facadas fatais em Antônio Raimundo, sem que os amigos pudessem reagir, mesmo porque mais dois comparsas do facínora assistiam a tudo. O assassino evadiu-se com a mesma facilidade com que invadiu a residência. O crime abalou a pequena vila.

A partir daí, amigos de Antônio Raimundo e o seu irmão Simplício Dias de Seixas e Silva passaram a noticiar o crime no jornal ludovicense, o Publicador Maranhense. Já na edição de 10 de dezembro do mesmo ano, “Um inimigo de assassinos”, conta como se deu o crime, mas sem saber a motivação.

No mesmo periódico de São Luís, Simplício Dias de Seixas e Silva, escreve ao redator defendendo a honra de seu irmão e a se próprio, e sobre as artimanhas políticas do coronel Miranda Osório, a quem chama de esbirro de polícia. É que Miranda Osório era prefeito da vila, cargo criado em 1830 com atribuições executivas e policiais, nomeado pelo presidente da província e a ele subordinado. Governava o Piauí à época, o temido Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba.

Na edição de 30 de novembro de 1853, Simplício faz um voto de gratidão ao vigário da agora cidade da Parnahyba, Francisco de Oliveira Gomes, por rezar missa em cada aniversário do dia fatal. Simplício agradece ao padre, por fazer este ato de pia generosidade de forma gratuita, pois a família do falecido se encontrava na quase indigência em que se acha hoje convertida a sua opulência d’outrora.

Antônio Raimundo contava apenas com trinta e oito anos de idade quando lhe ceifaram a vida, deixando esposa e filha inconsoláveis. Era filho de Simplício Dias da Silva e Maria Izabel Thomázia de Seixas e Silva. Tinha além do irmão Simplício Dias de Seixas e Silva, as irmãs Carolina Thomázia de Seixas e Silva e Helena Amália de Seixas Dias da Silva. Carolina foi assassinada em uma fazenda no Buriti dos Lopes. Helena veio a ter um caso com Miranda Osório e desta relação nasceu a menina Maria Izabel Thomázia Dias da Silva Miranda Osório.

Antônio Raimundo foi tenente-coronel do 2º Regimento de Cavalaria de Milicias do Piauí, batalhão que servia na vila parnaibana; elegeu-se deputado provincial no biênio de 1835 a 1836, sendo o deputado mais votado, num total de vinte parlamentares. Nesta legislatura aprovou-se leis provinciais todas de interesse ao progresso e desenvolvimento da província. Uma delas criava um Corpo de Polícia composto de Estado Maior e duas Companhias, com a força total de 309 praças – o embrião da Polícia Militar do Estado do Piauí. Nesta assembleia, estava também José Francisco de Miranda Osório.

Este crime ainda carece de pesquisas, podendo ter acontecido por motivação de honra, ou questões de inventário. Sendo pai de uma neta de Simplício Dias da Silva, José Francisco de Miranda Osório defendia o direito da filha que era a parte que cabia a companheira Helena Amália. As questões políticas também podem ter motivado o crime. Três anos antes da morte de Antônio Raimundo, o Piauí foi sacudido com a Revolta da Balaiada, que na província foi disputa política. Muitos aproveitaram para abalar a oligarquia do Visconde da Parnaíba que governava despoticamente a província há quase vinte anos. Nesta ocasião, as forças políticas piauiense se mostraram mais claramente, fato que gerou disputas entre conservadores e liberais. No Piauí, foi um dos momentos mais violentos da sua história.

Reza a tradição oral, que a família Dias da Silva colocou a roupa ensanguentada de Antônio Raimundo no oratório público na esquina da Casa Grande, pois sendo o Miranda Osório vizinho de frente na Rua Grande, este era constrangido com o badalar dos sinos da Matriz de Nossa Senhora da Graça, que dobrava finados, forçando Miranda Osório a mudar de endereço.


Casa Grande dos Dias da Silva com seu oratório público, na esquina da antiga Rua Grande com Rua da Glória, no centro de Parnaíba. Imóvel tombado pelo IPHAN.

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Imagem de capa estilizada a partir da fonte:
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